
A construção civil passa a incorporar ao canteiro práticas que aproximam a produção de um modelo industrial. Inteligência artificial, modelagem digital, automação, construção enxuta e fabricação de componentes são utilizadas em diferentes etapas dos empreendimentos, da escolha dos terrenos ao controle da execução. O movimento modifica processos que historicamente dependeram de operações manuais e decisões tomadas durante a própria obra.
O último Termômetro do Setor da Construção Civil, divulgado pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), mostra que 55% das empresas participantes utilizam a metodologia BIM, 41% adotam Lean Construction e 37% já recorrem à inteligência artificial. O uso de IA avançou em relação a 2023, quando era citado por 15% dos respondentes. Drones aparecem em 28% das empresas, enquanto realidade virtual e aumentada são utilizadas por 10% e soluções de Internet das Coisas (IoT), por 9%. Os dados indicam que ferramentas digitais e métodos de gestão já fazem parte das operações de uma parcela do setor, embora a adoção ainda varie conforme a tecnologia.
Um exemplo está na prospecção de terrenos. Na Emccamp, a inteligência artificial é utilizada para analisar informações geográficas, ambientais e legais relacionadas a áreas que podem integrar o landbank da companhia. O processamento de dados, que antes podia levar semanas, passou a ser realizado em dias ou horas, conforme o volume de informações.
A aplicação da tecnologia também chegou a outros processos. Em 2025, foram concluídos 26 projetos com uso de inteligência artificial em diferentes áreas da empresa. A área de Tecnologia da Informação criou ainda um setor dedicado à identificação e aplicação de soluções para automação de processos. "A utilização da inteligência artificial permite tratar grandes volumes de informações em menos tempo e colocar esses dados à disposição das equipes para as etapas de análise e decisão", afirma o Diretor de Tecnologia e Segurança da Informação da Emccamp, Cássio Lapertosa.
Planejamento digital antecipa decisões da obra
A construção enxuta é outra prática incorporada à operação. Na Emccamp, o Lean Construction passou a ser aplicado desde o desenvolvimento dos empreendimentos, na área de Projetos, até a execução e os setores de apoio. A metodologia organiza fluxos de trabalho, acompanhamento de metas e identificação de riscos.
No período, houve redução do consumo de 13 dos 17 principais materiais utilizados pela companhia. A metodologia também é utilizada em conjunto com o BIM, sistema que reúne informações dos empreendimentos em modelos digitais e permite trabalhar diferentes etapas do projeto antes da execução.
Em 2025, 85% dos projetos foram entregues para o início das obras. A companhia utiliza ainda o Autodesk Forma na gestão integrada de projetos e obras, com recursos para acompanhamento das informações e rastreabilidade dos processos. "A antecipação das decisões permite que projetos, planejamento e execução trabalhem com uma base comum de informações. Isso reduz a necessidade de resolver determinadas questões somente quando a obra já está em andamento", destaca o Diretor Nacional de Obras da Emccamp, Luiz Eduardo Machado.
Componentes deixam de ser produzidos apenas no canteiro
A industrialização representa outra mudança na forma de executar os empreendimentos. No último ano, a Emccamp internalizou a produção de kits elétricos, hidráulicos e de acabamentos em uma estrutura própria instalada inicialmente em São Paulo, com previsão de expansão.
A fabricação desses componentes fora do canteiro reduziu a necessidade de mão de obra em determinadas etapas e contribuiu para diminuir retrabalhos, custos e prazos. A padronização também permite maior controle sobre os componentes utilizados nas obras.
A companhia aplica o mesmo princípio às tipologias dos apartamentos. A uniformização dos projetos reduz adaptações durante a execução e o tempo necessário para reformas.
O processo inclui ainda testes de materiais e sistemas construtivos. A telha sanduíche foi utilizada em substituição à telha de fibrocimento em duas obras, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Em Minas Gerais, pisos vinílicos e revestimentos de PVC e PET foram testados em substituição à cerâmica.
Outra solução utilizada é o StormTech, sistema composto por módulos plásticos para captação, infiltração e controle de águas pluviais, que substituiu as aduelas de concreto. O PEAD também passou a ser utilizado em soluções de drenagem.
A tecnologia chega aos canteiros por meio de drones empregados em inspeções de qualidade de fachadas e telhados. A empresa trabalha na integração das imagens captadas com seu banco de dados. Para 2026, estão previstos estudos para utilização de robôs nos canteiros e um projeto-piloto com estrutura em Lightwall para um estande de vendas.
A mudança nos processos também exige formação profissional. Em 2025, a Emccamp Escola realizou 42 cursos e treinamentos, com mais de 490 participantes nas três regionais e 18 fornecedores parceiros. Entre as iniciativas esteve o primeiro curso de formação de montadores de forma em São Paulo, em parceria com o SENAI. A companhia também realizou 95 horas de cursos para o desenvolvimento técnico de 472 colaboradores, com formações em instalações elétricas e drywall.
A empresa criou um Comitê de Inovação dedicado aos processos construtivos e à experimentação de materiais. Para 2026, está prevista a integração dos sistemas de planejamento, controle e orçamento, com redução de interfaces manuais no acompanhamento das obras.
A combinação de ferramentas digitais, produção industrial de componentes e métodos de planejamento modifica a divisão tradicional das atividades na construção civil. Parte das decisões e da produção passa a ocorrer antes da chegada ao canteiro, enquanto a execução incorpora mecanismos de controle e acompanhamento baseados em dados.
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