
Horas de concentração, movimentos precisos e a necessidade de manter determinadas posições durante procedimentos prolongados fazem parte da rotina de muitos cirurgiões. A inclinação do pescoço, a elevação dos ombros e a pouca liberdade para alterar a posição do corpo podem contribuir para a sobrecarga física e colocar a ergonomia em discussão também dentro do centro cirúrgico.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no JAMA Surgery reuniu 21 estudos, com 5.828 cirurgiões e médicos intervencionistas. Nas estimativas de prevalência de dor em um período de 12 meses, 60% relataram dor no pescoço, 52% nos ombros e 49% nas costas. Entre os profissionais que apresentaram distúrbios musculoesqueléticos relacionados ao trabalho, 12% precisaram se afastar, restringir ou modificar a prática profissional ou antecipar a aposentadoria.
Na neurocirurgia, uma pesquisa internacional publicada em 2021 na Acta Neurochirurgica, com 409 participantes, identificou que 87,9% já haviam apresentado sintomas musculoesqueléticos relacionados ao trabalho. Pescoço, ombros e costas estavam entre as regiões mais afetadas. Além disso, 84,8% dos entrevistados consideraram que a ergonomia postural recebe pouca atenção na especialidade.
Parte da carga física pode estar relacionada à forma de visualização do campo cirúrgico. Em procedimentos realizados com microscópios ópticos, por exemplo, o cirurgião posiciona os olhos nas oculares e pode ajustar a cabeça, o pescoço e o tronco de acordo com o eixo do equipamento. Em operações prolongadas, a manutenção dessa posição pode contribuir para o desconforto físico.
A exoscopia é uma das tecnologias estudadas nesse contexto. Nela, uma câmera externa registra o campo cirúrgico ampliado e transmite imagens tridimensionais para um monitor. O cirurgião acompanha o procedimento olhando para a tela, em uma configuração conhecida como heads-up, que permite variar a posição de observação e pode ampliar as possibilidades de ajuste postural.
Marco Pazian, gerente da Unidade de Negócios de Neurocirurgia e Robótica da B. Braun, observa que a avaliação de tecnologias para o centro cirúrgico pode considerar, além da precisão e da qualidade de imagem, aspectos como ergonomia, facilidade de uso e integração com a equipe. Esses fatores fazem parte da experiência de utilização dos equipamentos durante procedimentos prolongados.
Um estudo exploratório publicado em 2023 na revista Neurosurgical Review comparou um protótipo de exoscópio digital 3D com um microscópio convencional em tarefas microcirúrgicas realizadas por seis neurocirurgiõas em espécimes cadavéricos. Os participantes relataram desconforto menos frequente na região dos ombros e do pescoço e menor demanda física percebida com o exoscópio. No entanto, os resultados também apontaram variações na atividade muscular conforme a posição do paciente; dois participantes relataram menor precisão de trabalho, e a demanda mental foi ligeiramente maior. Por ser exploratório e envolver um grupo pequeno, o estudo não permite conclusões definitivas sobre os efeitos da tecnologia.
A visualização do campo cirúrgico em um monitor também permite que auxiliares, residentes, instrumentadores e outros profissionais acompanhem a mesma imagem observada pelo cirurgião. Essa perspectiva compartilhada pode facilitar a comunicação durante o procedimento e apoiar atividades de treinamento e ensino.
O Aesculap Aeos, da B. Braun, é um sistema de exoscopia cirúrgica digital com assistência robótica. O equipamento utiliza visualização 3D e permite que a equipe acompanhe o campo cirúrgico por meio de um monitor, enquanto o cirurgião controla o procedimento e o posicionamento da câmera. O Aeos foi utilizado como protótipo no estudo exploratório publicado em 2023, que avaliou aspectos ergonômicos em tarefas microcirúrgicas.
Marco Pazian avalia que a liberdade para ajustar a posição de observação e o compartilhamento da imagem com a equipe são aspectos relevantes na discussão sobre exoscopia. Os possíveis efeitos ergonômicos, contudo, dependem de fatores como a posição do paciente e a adaptação dos profissionais, e seguem sendo objeto de investigação.
A discussão sobre tecnologia cirúrgica inclui, assim, as condições de trabalho de quem realiza os procedimentos. Estudos sobre ergonomia e exoscopia podem contribuir para compreender como a postura, a visualização e a dinâmica da equipe se relacionam durante cirurgias prolongadas, sem desconsiderar as limitações e os resultados ainda inconclusivos das pesquisas disponíveis.
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