Chapecó | 18.10.2021 | 20h41 Tecnologia

A China pode ter testado míssil nuclear hipersônico sem os EUA terem percebido

“Nós não temos ideia de como eles fizeram isso”, disse ao Financial Times uma fonte anônima, quando questionada sobre um suposto teste feito pela China, de um míssil de capacidades nucleares que circulou a Terra sem que os EUA percebessem a ação. Segundo a fonte, foi usado um “veículo flutuador hipersônico” que, especialistas afirmam, poderia transpor as defesas anti aéreas americanas se usado em um cenário prático.

PARTICIPE DO GRUPO DE NOTÍCIAS NO WHATSAPP

“Estamos muito preocupados com o que a China vem fazendo no setor hipersônico”, disse Robert Wood, embaixador de desarmamento dos Estados Unidos, durante um evento em Genebra, na Suíça.

Segundo as fontes ouvidas pelo Financial Times, o teste teria sido conduzido em agosto: basicamente, a China lançou o míssil a bordo de um foguete Long March, que teria circulado a Terra na baixa órbita antes de, por pouco, errar seu alvo – seja ele qual for. “Simplesmente não sabemos como podemos nos defender contra esse tipo de tecnologia. China e Rússia também não o sabem”, disse Wood a alguns repórteres.

De acordo com o Ministro das Relações Exteriores chinês, Zhao Lijian, porém, os relatos estão equivocados: “pelo meu entendimento, esse foi um teste de rotina de transporte espacial, com o objetivo de avaliar tecnologia reutilizável. Isso pode oferecer uma forma conveniente e barata de os humanos viajarem ao espaço para propósitos pacíficos”, disse o porta-voz ao Guardian e à Al-Jazeera.

O teste “pegou os sistemas de inteligência dos EUA de surpresa”, disse uma fonte do Financial Times, que preferiu o anonimato por atuar diretamente no governo norte-americano. A matéria do jornal ainda cita que o teste veio “com um timing ruim”, tendo em vista que as relações geopolíticas entre a China e os EUA estão se deteriorando.

“Esse timing não é surpresa para ninguém”, disse Tong Zhao, membro do Programa de Políticas Nucleares do Centro Carnegie–Tsinghua em Beijing. “A China é conhecida por conduzir pesquisas em novas tecnologias de entrega de carga há algum tempo. Mas mesmo que esse suposto lançamento tivesse sido um teste de armas, ele ainda pode estar há anos de uma capacidade operacional”.

Zhao ainda ressalta que, se a reportagem do Financial Times fosse verdade, então a China estaria apenas diminuindo a distância tecnológica frente a recursos mais sofisticados que os EUA já possui, citando como exemplo a nave X-37B, da Boeing.

Mísseis hipersônicos têm uma similaridade em relação aos mísseis balísticos intercontinentais (da sigla em inglês, “ICBM”): ambos têm capacidade de carga nuclear. Entretanto, os ICBMs viajam para o espaço em uma trajetória em forma de arco, subindo para um ponto máximo, e descendo em seguida.

Mísseis hipersônicos podem viajar a velocidades até cinco vezes maiores que os ICBMs, e seguem uma trajetória mais baixa e, consequentemente, mais reta. Basicamente, eles chegam aos alvos mais rápido e com muito mais “embalo”. Mas a sua principal vantagem é a capacidade de manobra: enquanto ICBMs possuem uma trajetória fixa e seu desvio é mínimo, mísseis hipersônicos podem ser redirecionados, tornando-os bem difíceis de serem monitorados por radares e tecnologias de detecção.

Em outras palavras, eles não são invisíveis, mas “ficar de olho” neles requer alta tecnologia e atenção contínua. Hoje, os EUA, China, além de Rússia e “pelo menos outros cinco países” (segundo o Guardian) pesquisam essa tecnologia.

Vale lembrar, porém, que os sistemas de defesa antimísseis servem, majoritariamente, contra “estados rebeldes”, com capacidade militar abaixo da categoria nuclear. Neste ponto para cima, a chamada escola da “destruição mútua assegurada” é o que protege os países produtores de tecnologia militar nuclear: essa doutrina rege, basicamente, que se um disparar um arsenal nuclear contra o outro, este outro também fará o mesmo com o primeiro – e ambos seriam destruídos.

“Isso não é uma mudança de paradigmas”, disse Laura Grego, pesquisadora de Segurança Nuclear no Massachusetts Institute of Technology (MIT), via Twitter. “O sistema de defesa balístico dos EUA não é feito para se defender dos mísseis que a China tem hoje. “Entretanto, ele pode ser uma proteção se e para quando os EUA eventualmente desenvolverem defesas contra os ICBMs da China. Considerando a natureza ilimitada dos programas de defesa americanos e a nossa capacidade de conduzir um disparo de desarme, a nossa defesa continua a ser uma preocupação para a China”.

Em outras palavras: na improvável situação de um ataque, a China não conseguirá atravessar muito das defesas americanas – e a retaliação ocidental viria em seguida.

Fonte: Olhar Digital