Chapecó | 09.12.2016 | 21h25 Geral

Ponto de partida: após tragédia, base da Chape é caminho para reação

Clube voltará a jogar uma competição oficial em janeiro, na Copa São Paulo: "Time sub-20 vai ser importante no processo da volta por cima", diz coordenador.

Semifinal do Catarinense sub-20 de 2016. Na Arena Condá, garotos da Chapecoense contra a gurizada do Avaí. A derrota por 1 a 0 no jogo de ida, na casa do adversário, obrigava a Chape a vencer por qualquer placar. Só que o Avaí saiu na frente, o que dificultou a missão. Para conseguir a virada e a classificação para final, os meninos contaram com um apoio importantíssimo. Boa parte do time principal da Chape estava no estádio e vibrou com a vitória de virada, por 2 a 1, nos acréscimos. Uma festa só.

- Nesse jogo contra o Avaí, eles ficaram assistindo e torcendo. Saímos perdendo, mas conseguimos virar. Eles estavam sempre perto dos garotos, sempre. O vestiário da base é do lado do profissional, o contato era diário, muito próximo mesmo - conta Adilson Kucharsky, um dos coordenadores da base do Verdão do Oeste.

Aquele seria o último contato entre o presente e o futuro da Chapecoense. Depois daquele 25 de novembro, o time principal viajou para enfrentar o Palmeiras em São Paulo, pelo Brasileirão, e em seguida partiria para a final da Copa Sul-Americana, na Colômbia, o que nunca aconteceu. Dezenove jogadores faleceram na tragédia com o avião da Chape. Entre eles, o ídolo Danilo.

- Você chegar num coletivo e ser chamado para treinar com o Cléber Santana, fazia um gol no Danilo. Era um incentivo para os garotos da base. Danilo era um ídolo-amigo. Danilo era... meu Deus! Totalmente presente.

Horas antes do acidente, a Chape sub-20 entrou em campo. Foi na tarde de segunda-feira, na Arena Condá, no primeiro jogo da final contra o Criciúma. Venceu por 1 a 0.

- Saímos daqui umas sete da noite, todos felizes, e mais tarde veio a notícia do acidente - lembra Adilson.

A segunda partida da final ainda não foi disputada. A direção da base da Chapecoense espera que ela fique para o ano que vem. Entende que não há clima no clube para um jogo de futebol ainda em 2016, mesmo que da base.

TREINOS SERÃO RETOMADOS

Mas o clube não vai parar. Os times sub-17 e sub-20 voltarão a treinar na próxima segunda-feira. É o retorno da Chapecoense à rotina do futebol, ao menos na base. Um retorno que faz parte do processo de reconstrução do time profissional e do clube. Um ponto de partida.

- Eu penso que a base pode ajudar a compor o futuro time, peças podem ser aproveitadas - afirma Adilson, que divide a coordenação da base da Chapecoense com Cezar Dal Piva.

Ao mesmo tempo em que a Chapecoense crescia e aparecia na elite do futebol, a base engatinhava.

- Tínhamos uma estrutura muito pequena, que foi crescendo junto com o clube. Em 2014, lançamos quatro meninos no profissional. Em 2016, subiram 11. Nunca havíamos chegado numa final, ano passado fomos campeões do estadual sub-17. Esse ano chegamos pela primeira vez à final do sub-15, perdemos para o Figueirense. E na sub-20 chegamos na final.

Essas três principais categorias da base reúnem cerca de 100 jogadores. Pelo menos 15 deles, da sub-17 e da sub-20, já assinaram o primeiro contrato profissional com a Chapecoense.

Além disso, o clube garimpa e lapida talentos que saem das escolinhas, que atendem crianças e adolescentes de 7 a 17 anos. Para ampliar o leque, o clube montou 19 núcleos de escolinhas. Eles estão espalhados por cidades de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul.

- O trabalho é bem feito. Esse grupo sub-20 que está jogando agora vem de um trabalho de três a quatro anos, estão conosco há bastante tempo. É no mínimo satisfatório - frisou Adilson.

Presidente em exercício da Chape, Ivan Tozzo afirmou no início da semana que a Chape pensa, hoje, em montar um time para o jogar o Estadual. A equipe sub-20 será o ponto de partida na montagem do novo elenco. Depois do Catarinense, será iniciada uma nova etapa de contratações para o Brasileiro e demais competições, inclusive a Libertadores da América, já que a equipe foi declarada campeã da Copa Sul-Americana.

- Eu penso que a gente ainda não estava pronto. Mas esse time sub-20 vai ser importante, vão ser importantes no processo da volta por cima da Chapecoense. Temos que passar confiança, pegar na mão deles e que eles assumam, que encarem isso. Mas a gente tem uma pergunta: quem vem? A gente não sabe ainda. Quem vem montar time, quem vem para ser treinador. O trabalho está aí, está feito. A gente fica bastante contente. Estamos torcendo para que possam aproveitar os guris. É precoce, mas, se tem que ser assim... que seja.

COPINHA MARCA RETORNO

A Copa São Paulo de Futebol Júnior, que começa em janeiro, marcará o retorno da Chapecoense aos gramados. Trinta jogadores foram inscritos, mas o número pode mudar se o novo departamento de futebol profissional desejar. Será a terceira participação da Chape na Copinha. Nas duas primeiras, não passou da primeira. A meta, agora, é passar de fase.

- Para eles é muito bom estarem conseguindo jogar num clube que há quatro anos não era nada, mas cresceu, estava crescendo e vai continuar. Hoje, os garotos conseguem jogar de igual para igual com a base de grandes clubes do Brasil. E eles têm vibração de jogar pela Chapecoense - comentou o coordenador.

Emoção e cabeça no lugar. O trabalho realizado por psicólogos e assistentes sociais na base da Chape foi intensificado após a tragédia. O clube não quer sobrecarregar os garotos com uma responsabilidade excessiva.

- Esperamos que eles tenham a cabeça boa nesse momento e que consigam dar sequência na carreira deles. Que dê certo, a gente confia muito neles. É um trabalho que está sendo feito com muito carinho, coisa de torcedor da Chapecoense. Isso é do povo de Chapecó. É uma cidade que cresceu porque acredita no que faz. O povo faz e confia no que faz, vai buscar. E na Chapecoense não é diferente. Acredita e faz acontecer. E a gente está aprendendo. Estamos tentando fazer um futebol de primeiro mundo.


Fonte: PORTAL TRI