Chapecó | 02.12.2016 | 07h03 Geral

Plano de voo da Chapecoense não tinha paradas para reabastecer e descumpre normais internacionais

O plano de voo da Lamia que levou o time da Chapecoense para a Colômbia continha uma série de contradições e irregularidades. Submetido e aprovado por volta das 18h30min de segunda-feira (horário de Brasília) pela Administração de Aeroportos e Serviços Auxiliares à Navegação Aérea (Aasana), o documento declarava como tempo estimado de voo entre Santa Cruz de la Sierra e Rio Negro, na região metropolitana de Medellín, 4h22min – justamente o mesmo tempo informado como autonomia máxima da aeronave com o tanque de combustível cheio.

Para um trajeto como esse, a aeronave deveria ter pelo menos 5h15min de autonomia, segundo especialistas em aviação. Na descrição da rota a ser percorrida pela aeronave Avro RJ 85 – que saiu de Santa Cruz de la Sierra em direção ao Acre, passando pela Amazônia até chegar a Rio Negro –, não há qualquer menção de paradas para reabastecimento. Em dois campos, no entanto, as aerovias que passam sobre a cidade de Bogotá – que fica a cerca de 215 quilômetros do aeroporto de destino – são citadas.

Na primeira vez, o Aeroporto Internacional El Dorado é assinalado como alternativa para pouso, caso a pista do Aeroporto José Maria Córdova (em Rio Negro, região de Medellín) estivesse fechada ou houvesse restrição meteorológica. Essa é uma opção presente em todos os planos de voos, domésticos ou internacionais, e o piloto tem até dois aeródromos próximos para sugerir.

A Lamia indicou apenas um, mas segundo o especialista em segurança de voos e major da reserva da Força Aérea da Colômbia, Julio Palacios, é obrigatório assinalar duas opções alternativas de pouso em voos internacionais. Nesse caso, Cáli seria a alternativa mais indicada.

No outro campo em que Bogotá é mencionado é para descrever que o avião passaria sobre o espaço aéreo da cidade por volta das 0h36min (horário de Brasília). Novamente sem nenhuma menção a paradas para abastecimento ou desembarque de passageiros.

Esse horário previsto no plano de voo é exatamente 17 minutos antes do horário exato em que o comandante Quiroga declarou emergência por falta de combustível, segundo o secretário Nacional de Segurança Aérea da Colômbia, Freddy Bonilla. Por ironia, ao se aproximar do aeroporto de Rio Negro e não ter a prioridade de pouso de imediato, por conta do vazamento de combustível de um Airbus A-320 da empresa Viva Colômbia, o avião da Chapecoense já não tinha mais autonomia para voltar a Bogotá.

Para o especialista em segurança de voos, comandante Carlos Camacho, se o plano de voo tivesse previsto inicialmente uma parada em Bogotá, que fica a cerca de 20 minutos do aeroporto de Rio Negro, já garantiria certa autonomia para a aeronave pousar no destino final com segurança. No entanto, ainda assim correria riscos, caso houvesse imprevistos ou fila para o pouso no Aeroporto de Bogotá.

– É melhor do que cair, mas ainda assim ficaria muito apertado – avalia Camacho.

De acordo com as normas internacionais, uma viagem com esse percurso, de 2.975 quilômetros (equivalente ao de Florianópolis a Manaus), a aeronave deveria contar com combustível para poder voar pelo menos 5h15min com segurança.

Parada em Bogotá ainda poderia apresentar riscos

Para Camacho, ao analisar a descrição da rota percorrida pelo Avro RJ 85, o ideal seria ter previsto uma parada ainda mais cedo, como em Rio Branco, no Acre, ou mesmo no pequeno aeroporto da cidade colombiana de Leticia, na fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia, a cerca de 1,3 mil quilômetros de Rio Negro.

Palacios, que já fez essa rota algumas vezes, também sugere Leticia, 1h40min distante de Rio Negro, como alternativa mais segura:

– Bogotá e Medellín não são destinos para esse voo. O ideal seria parar em Leticia por dois motivos: abastece o combustível e dá para fazer a migração dos passageiros de forma mais confortável. Se tivesse parado em Letícia, esse acidente não teria acontecido.

Além disso, o comandante do voo Miguel Quiroga, que também é sócio da Lamia, não foi quem assinou o documento, mas um despachante da empresa. A funcionária da Aasana, Celia Castedo, que assinou a liberação do plano de voo, disse em relatório que avisou o despachante das irregularidades e que o tempo estimado de voo era o mesmo da autonomia máxima do avião.

Mas depois, ela admite que cedeu à teimosia do representante da Lamia. A funcionária e autoridades da Aasana e da Direção Geral de Aviação Civil (DGAC) foram afastados ontem pelo governo da Bolívia, que iniciou uma investigação.

Fonte: DIÁRIO CATARINENSE