Chapecó | 12.06.2019 | 18h51 Economia

Para exportar mais é preciso sinergia, aponta o setor de revestimentos cerâmicos

Arnaldo F. Cardoso
A recente divulgação de números do último trimestre da economia brasileira, como a queda de 0,2% do PIB provocando revisão para baixo de projeções (que já eram ruins) para o ano, além de aumentar a apreensão com o futuro, evidenciou a fraqueza do debate entre economistas e membros da área econômica do governo.

Mas foi a concomitante divulgação de outros números como o do fraco desempenho da indústria e mais especificamente de setores como o da construção civil, que tornaram mais evidentes (para quem quer ver) os contornos de um quadro de problemas, alguns conjunturais e outros estruturais que, sem a produção de sinais positivos do governo, são agravados com a correspondente queda do nível de confiança de consumidores e investidores.

O setor da construção civil, importante termômetro da atividade econômica dada às extensas cadeias produtivas que reúne e seu poder de geração de empregos, ao revelar queda de 2% no primeiro trimestre de 2019, conforme divulgado pelo IBGE, acumulou mais um resultado ruim numa grave sequência de vinte trimestres de queda.

E enquanto a realidade se deteriora o que temos de "debate" tem sido um infrutífero confronto de slogans repetidos como mantras opondo supostos liberais e intervencionistas, revelando certo descolamento destes, dos efetivos problemas enfrentados por quem está no cotidiano da produção e distribuição de bens e serviços nos diferentes setores produtivos e regiões do país.

Um debate qualificado é importante para a boa compreensão dos problemas e, para tal, as pesquisas setoriais realizadas em universidades, centros de pesquisas e instituições de apoio de setores constituem-se em instrumentos valiosos para o apoio na concepção de políticas públicas e privadas, de curto e longo prazos, visando a superação dos problemas.

Exemplo do potencial de pesquisas setoriais pôde ser observado por banca avaliadora de recente pesquisa apresentada por pesquisador vinculado à Universidade Presbiteriana Mackenzie, sobre o setor de pisos e revestimentos cerâmicos no Brasil. O setor que é constituído por 93 empresas, com maior concentração nas regiões Sudeste e Sul, onde se encontram os clusters de Santa Gertrudes (SP) e de Criciúma (SC), gera 23 mil postos de trabalho diretos e cerca de 200 mil indiretos e coloca o país na terceira posição entre os maiores produtores mundiais.

A pesquisa foi realizada ao longo dos três últimos semestres e teve como objetivo identificar os principais fatores críticos para a competitividade internacional do setor, uma vez que o Brasil é o terceiro maior produtor mundial e apenas 13% dessa produção é destinada ao mercado externo.

De tipo qualitativo, a pesquisa utilizou da técnica de coleta de dados primários através de entrevistas semiestruturadas junto a experientes profissionais de cinco importantes empresas do setor, localizadas nos dois principais clusters.

A abordagem do setor orientada pelo conceito de cadeia produtiva favoreceu a investigação por propiciar uma visão sistêmica e ao mesmo tempo, um olhar específico sobre cada elo da cadeia.

Ouvindo os profissionais do setor, pôde-se conhecer a percepção destes quanto aos fatores críticos que limitam o desempenho e inserção internacional do setor. Além de problemas estruturais, como a elevada carga tributária sobre a produção, e os de infraestrutura logística, foram apontados por todos os entrevistados os elevados aumentos de preços de insumos de setores monopolísticos como o gás e a energia elétrica; a falta de política comercial pública, de acordos comerciais com países com verdadeiro potencial de recepção do produto nacional, como fatores que colocam o produtor brasileiro em desvantagem com seus concorrentes estrangeiros.

Os profissionais do setor de pisos e revestimentos cerâmicos entrevistados mencionaram a importância das ações de instituições de apoio do setor como a Anfacer (Associação Nacional dos Fabricantes de Cerâmica) – hoje conduzida pelo experiente CEO Maurício Borges, ex-presidente da Apex –, os sindicatos estaduais do setor e o CCB (Centro Cerâmico do Brasil) na condução de negociações de interesses do setor, na realização de feiras como a Revestir, na promoção de empresas e produtos em mercados internacionais e nos importantes processos de apoio a inovação e certificação de produtos. Ainda sobre a relação entre as empresas do setor e referidas instituições de apoio, os entrevistados apontaram como desejável um avanço nos processos de governança, dando maior unidade e força para a representação do setor.

Quanto à atualização tecnológica e qualidade dos produtos das empresas nacionais, os entrevistados avaliaram não haver defasagem significativa em relação aos principais produtores mundiais e disto é prova os vários prêmios internacionais já recebidos pelo setor, inclusive em design, tão importante.

Entre as empresas ouvidas na pesquisa, uma delas informou que 35% de sua produção é destinada ao mercado externo, destacadamente a países da América Latina. Destacando-se da média do setor, informou que a empresa adota uma política de exportação que torna contínuo o fornecimento a clientes estrangeiros, permitindo fidelização e desenvolvimento de imagem internacional da empresa como fornecedora confiável.

A redução da dependência do mercado doméstico amplia o espaço para gestão e planejamento estratégico de empresas e favorece o acesso aos benefícios da participação em cadeias globais.

O que a referida pesquisa (ainda que com limitações) e outras do gênero mostram é que transpor os entraves deixados por um processo de mais de 60 anos de industrialização fechada, voltada exclusivamente para o mercado interno e protegida da competição internacional é o grande desafio para setores dinâmicos como o de pisos e revestimentos cerâmicos do Brasil, que acumulam, até o presente, importantes conquistas mas que, só com a sinergia de ações empresariais e de governo, dotadas de caráter estratégico, é que conseguirão dar continuidade e expansão aos ganhos de suas até então exitosas trajetórias.

E.T. Os resultados da pesquisa referida no artigo serão publicados em futuro artigo acadêmico.

Arnaldo F. Cardoso, professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, atua nas áreas de comércio exterior e inteligência de negócios. Desenvolve pesquisa sobre o setor de pisos e revestimentos cerâmicos do Brasil. Foi o orientador da pesquisa apresentada no artigo. E-mail: arnaldofcardoso@hotmail.com

Fonte: ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO