Chapecó | 10.01.2018 | 20h16 Geral

'Pagando por algo que não fez', diz mulher de líder de templo preso por suspeita de morte de crianças

Silvio Fernandes Rodrigues foi preso no dia 27 de dezembro. Ele é apontado pela polícia como líder de um templo satânico envolvido em morte e esquartejamento de crianças durante ritual de prosperidade.

Silvio Fernandes Rodrigues foi uma das quatro pessoas presas preventivamente pela polícia, apontadas como suspeitas da morte e esquartejamento de duas crianças em um ritual satânico ocorrido na Região Metropolitana de Porto Alegre. Ele é líder do templo descoberto na investigação. Sua esposa, no entanto, afirma que ele está pagando por um crime que não cometeu.

"Ele está bem chateado, triste com a situação, porque ele está pagando por algo que não fez, e a pessoa que fez essa barbaridade está na rua, rindo. [a polícia] Não tem provas reais", diz ao G1 a empresária Aline Melo da Silva, 28 anos.

Conforme a polícia, o ritual teria acontecido no templo de Silvio, encomendado por dois empresários de Novo Hamburgo, também presos preventivamente, que queriam prosperidade nos negócios. Ainda de acordo com a investigação, eles pagaram R$ 25 mil pelo serviço.

Os corpos das duas crianças foram encontrados esquartejados em setembro em uma área de vegetação no bairro Lomba Grande, em Novo Hamburgo. O exame de DNA apontou que elas teriam entre 8 e 12 anos, e teriam sido raptadas na Argentina em troca de um caminhão roubado. Por isso, a polícia está em contato com autoridades daquele país.

Uma quarta pessoa também foi presa, e seria o braço direito dos empresários. Três pessoas estão foragidas.

Aline afirma que o marido não conhece os empresários, e diz que nunca viu os dois no templo onde são realizados os rituais. Segundo ela, a polícia fez buscas no local e coletou diversos objetos.

"Falaram de um crânio. Ele existe, é de barro, por isso que a polícia não levou. Eles fizeram buscas na casa, no galpão, em um local onde é feita a comida, na lareira que usamos no inverno, mas não acharam nada. Levaram umas roupas de bebê que eram da bisneta da ex-mulher do Silvio, e uma máscara que é do filho dele, que ele comprou da China, temos o comprovante de que chegou no dia 20 [de dezembro]", afirma Aline.

"O delegado perguntou se havia uma capa vermelha, e eu disse para ele que não tinha capa vermelha, apenas uma preta. O delegado disse que mentiram para ele, mas isso não é verdade, disse que poderiam levar a capa", lembra ela.

Aline acrescenta que não vê provas reais no que foi apresentado pela polícia até agora. "Só vejo indícios, não vejo prova real, digital, sangue das crianças, não tem nada disso."

"A situação é bem constrangedora, estão ameaçando a mim e a minha família, ameaçaram de atear fogo. Temos que andar com cuidado na rua porque as pessoas acham que isso tudo é verdade."
De acordo com a mulher, a polícia ligou Silvio aos empresários que teriam feito a encomenda com sacrifício por meio de uma suposta troca de mensagens. "O delegado disse que houve uma troca de mensagens combinando de pegar as crianças, mas nunca mostrou, só falou, não deu as provas", reclama.


Aline ainda critica a forma como o delegado agiu no dia da prisão. "Quando ele chegou, disse que era graças ao Espírito Santo que ele encontrou a pessoa que fez isso", conta.

O delegado que comandou a operação e pediu as prisões preventivas de sete suspeitos não está mais com o caso. Moacir Fermino havia substituído o titular, Rogério Baggio, que reassumiu o caso na terça-feira (9) após retornar das férias.

Defesa prepara recursos após pedido de liberdade ser negado
A defesa de Silvio Fernandes Rodrigues tenta na Justiça a liberdade dele. A advogada Denise Dal Molin Pelizzoni, que elaborou o pedido, informou ao G1 que foi negado. Em contato com o Tribunal de Justiça, a reportagem confirmou que o juiz Sylvio Baptista Neto indeferiu o pedido na terça-feira (9).

Para o juiz, a liminar "só pode ser atendida, quando, pelas provas trazidas pelo impetrante [advogado], há inquestionável constrangimento ilegal para o paciente [suspeito]. Não é o caso."

Denise deixou o caso, e outros advogados já estão atuando na defesa. Um deles, Marco Alfredo Mejia, informa que um novo pedido de liberdade provisória foi protocolado no Fórum de Novo Hamburgo.

Além disso, a equipe de advogados fará um pedido em juízo para que o processo seja enviado à Justiça Federal, uma vez que envolve suspeitas relacionadas a crianças estrangeiras. "Entendemos que é o foro adequado para este caso", afirma Mejia.

Conforme o advogado, o pedido é feito ao juiz do caso. Se indeferido, Mejia informa que ingressará com a solicitação em instâncias superiores.

Advogada questiona declarações de cunho religioso
A advogada Denise havia protocolado o pedido de habeas corpus ainda antes de a prisão temporária ser convertida para preventiva. Primeiramente, foi analisado pelo juiz plantonista Sandro Luz Portal. Essa decisão, também negativa, saiu em 5 de janeiro.

O juiz argumentou que "o impetrante não acostou peças fundamentais ao exame dos indícios de autoria." Acrescentou que "a prisão temporária se mostra, ao menos nos limites do exame possibilitado, de fato necessária em face da complexidade do crime investigado, cuja dimensão, certamente, oferta obstáculos à investigação policial."

Na defesa, Denise questionou declarações de cunho religioso feitas pelo delegado que conduzia as investigações, Moacir Fermino. A ex-defensora pedia que Silvio fosse solto porque já havia prestado esclarecimentos e as buscas já haviam sido concluídas pela polícia.

"Estava pedindo que ele fosse solto porque já tinha prestado esclarecimentos, e as buscas na chácara dele já haviam sido concluídas, além do cerceamento de defesa, porque o delegado não forneceu acesso ao inquérito, e também por conta da questão religiosa", salienta.

À imprensa, Fermino disse que "revelações divinas" ajudaram na investigação do caso. "Meu cliente disse que no ato da prisão, o delegado disse que tinha chegado a ele por conta dessa profecia, meu cliente disse isso, achou até que ele estava brincando", conta a advogada.

Durante coletiva na segunda-feira (8), o delegado Fermino, que é evangélico, detalhou que as revelações vieram por meio de "profetas".

Horas depois da coletiva, a Polícia Civil informou que as investigações passariam a ser conduzidas pelo delegado titular da Delegacia de Homicídios de Novo Hamburgo, Rogério Baggio, que estava de férias. Ele foi o responsável pelo início do inquérito, em setembro, quando os corpos esquartejados das crianças foram encontrados.

Rogério assumiu o caso na terça-feira (9). Ele informou que os celulares dos suspeitos e materiais apreendidos nas buscas serão periciados.

O delegado Fábio Motta Lopes, diretor do Departamento de Polícia Metropolitana, nega que a crença religiosa de Fermino possa ter prejudicado ou influenciado as investigações. "Apesar de ter sido utiilizado um termo, na minha visão, inapropriado, efetivamente as investigações seguiram o rumo adequado", afirma.

"Há provas testemunhais que levam a um ritual macabro, satânico, em que duas crianças acabaram sendo sacrificadas com indícios suficientes de autoria. Se assim não fosse, o Poder Judiciário dificilmente decretaria a prisão", sustenta.

Fonte: G1