Chapecó | 21.05.2019 | 17h02 Mundo

No Japão, procurar emprego aos 75 anos é o 'novo normal'

Após ser demitida aos 75 anos, Mikiko Kuzuno se viu forçada a se candidatar a um emprego em uma fábrica nos arredores de Tóquio. E fez questão de se apresentar pessoalmente.

— Pedi que dessem uma olhada em mim — disse ela. — Queria mostrar o quanto sou saudável.

Agora com 78 anos, Kuzuno está há três anos trabalhando na pequena fábrica em Warabi, onde ajuda a lavar e empacotar toalhas de mão fornecidas a clientes em restaurantes.

É uma tarefa árdua, que exige ficar todo o tempo de pé ao longo de turnos alternados de três horas, mas ela não pensa em se aposentar — em parte por razões financeiras, mas também porque detesta ficar sem fazer nada em casa.

Este perfil deve ser tornar o ‘novo normal’ no Japão, com idosos acima de 70 anos ou mais continuando a trabalhar e a buscar emprego. Já conhecido como o país dos workaholics e em meio a um processo de envelhecimento que é o mais rápido do mundo, o Japão se esforça para manter os trabalhadores no mercado de trabalho até idades avançadas.

O envelhecimento da população do Japão elevou os gastos com pensões, que responderam por cerca de 30% das despesas do governo no ano fiscal encerrado em março. Grande parte dessa despesa foi financiada por dívidas.

O primeiro-ministro Shinzo Abe quer mudar a legislação, proibindo empresas de fixarem idade para aposentadoria compulsória e criando incentivos para a contratação de pessoas mais velhas.

O Japão é o país com a maior proporção da população com 65 anos ou mais, e a expectativa de vida, de 84 anos, empata com a da Suíça como a maior do mundo, segundo dados do Banco Mundial.

Com uma taxa de natalidade em declínio, a população do Japão deverá cair quase 30% até 2060, período em que cerca de 40% dos cidadãos terão 65 anos ou mais, segundo o Instituto Nacional de Pesquisa sobre População e Previdência Social.

— Precisamos mudar a estrutura econômica da sociedade para nos adaptarmos a um padrão de longevidade de 100 anos —, disse Shinjiro Koizumi, de 38 anos, parlamentar que lidera um comitê sobre envelhecimento do Partido Liberal Democrata, em entrevista à Bloomberg News. — Esta deve ser nossa maior prioridade, ou não poderemos reformar a Previdência para dar esperança à próxima geração.

Convencer as pessoas a trabalharem alguns anos a mais pode ser difícil. Uma pesquisa publicada pelo gabinete do governo em janeiro mostrou que cerca de 38% dos japoneses querem trabalhar além dos 65 anos, enquanto mais de 50% preferem se aposentar antes dessa idade.

Os empregos que o Japão precisa mais preencheram em campos de trabalho intensivo, como construção, cuidados de enfermagem e serviços de entrega, não são os empregos tipicamente associados aos trabalhadores mais velhos. As áreas rurais com o maior percentual de residentes com 65 anos ou mais também têm poucos empregos adequados à força de trabalho que envelhece.

Os empregos que o Japão mais precisa preencher são em segmentos de trabalho mais intensos, como construção, cuidados de enfermagem e serviços de entrega, e não são tipicamente associados a trabalhadores mais velhos. As áreas rurais com o maior percentual de residentes com 65 anos ou mais também têm poucos empregos adequados à força de trabalho que envelhece.

Uma pessoa que vem abrindo as portas para os trabalhadores mais velhos é Atsushi Morishita, de 72 anos, fundador e presidente da Tempos Holdings, que administra uma rede de 58 lojas de equipamentos de cozinha comercial. Ele foi inspirado a fazê-lo por seu pai, que trabalhou em uma fazenda em seus 90 anos.

— Em Tóquio, assim que as pessoas completam 65 anos, perdem tempo jogando críquete ou algo assim. Então eu pensei em fornecer um lugar para elas trabalharem — disse Morishita.

Cerca de um quarto de sua força de trabalho tem 60 anos ou mais.

Os donos de empresas devem entender que os trabalhadores mais velhos normalmente significam menor produtividade, de modo que os salários e os níveis de produção precisam ser administrados de acordo, diz o empresário:

— Em lugares como a Toyota exige-se uma alta produtividade. Então, eu não acho que eles poderiam fazer isso — disse ele. — Mas em uma empresa mais flexível como a nossa, tudo bem.

Um dos funcionários de Morishita é Takayoshi Kimura, de 73 anos, contratado quando tinha 58 anos e acabou se tornando um dos principais vendedores em uma movimentada loja de Tóquio. Ele havia fechado seu próprio negócio em dificuldades em uma localizada rural e chegou à capital em busca de emprego, deixando sua esposa em sua cidade. Kimura ama conhecer jovens empreendedores em seu trabalho, enquanto seus amigos na zona rural do Japão acabam sendo contratados como seguranças.

— Não há empregos no campo — disse Kimura, cuja esposa pede para ele voltar para casa, mas ele quer continuar trabalhando até os 75 anos.

Morishita, por sua vez, afirma que ele pode ficar por mais uns 20 anos trabalhando.

Não está claro se fazer com que mais pessoas em idade de se aposentar permaneçam na força de trabalho afetará significativamente as contas da Previdência no Japão, já que muitas optam por receber pagamentos de pensão enquanto continuam trabalhando. Enquanto o governo quer que os trabalhadores adiem suas aposentadorias, apenas cerca de 1% da população elegível está aproveitando a opção existente, sob a qual eles podem adiar a aposentadoria até 70 anos em troca de um aumento de mais de 40% nos pagamentos.

Empregados mais velhos dizem que boa saúde e condições agradáveis os ajudam a adiar a aposentadoria. Mikiko Kuzuno tem outra motivação: ela é solteira e determinada a não se tornar dependente de suas duas filhas. Trabalhando desde a adolescência, a maioria de seus empregos não ofereciam benefícios de pensão corporativos. Ela vive de uma minguada pensão estadual, complementada pelo salário da fábrica de toalhas.

— Eu quero trabalhar o máximo que puder. Minhas filhas têm seus próprios problemas— disse ela. — Eu mal posso dar conta das despesas, então eu realmente preciso fazer o meu melhor.

Fonte: O GLOBO