Chapecó | 15.03.2017 | 17h11 Geral

Luciano Buligon: o homem em busca de um novo sonho para Chapecó

O prefeito responsável por trazer da Colômbia os corpos das vítimas do acidente com a Chapecoense quer ajudar na reconstrução da moral do clube e da cidade.

Em pouco mais de um ano, a vida de Luciano Buligon (PSB-SC) sofreu uma série de transformações radicais. Em dezembro de 2015, ele assumiu a prefeitura da cidade de Chapecó depois que José Caramori, seu companheiro de chapa, deixou o posto para assumir um cargo no governo estadual de Santa Catarina. No ano seguinte, em outubro, foi reeleito com 61% do votos da cidade. Tudo seguia como planejado até a queda do avião fretado da empresa LaMia, em novembro do ano passado, que vitimou 71 pessoas, entre elas quase toda a equipe da Associação Chapecoense de Futebol. Representante brasileiro na Colômbia, Buligon foi quem acompanhou a tragédia mais de perto. Por isso, ainda trata o tema com muitas ressalvas. “Fiz algumas promessas para mim mesmo, como não contar a parte ruim da missão de Medellín, as coisas que eu vi lá. Isso vai morrer comigo e eu não vou contar. Só vou contar as coisas de solidariedade e as coisas lindas que aquele povo nos ofereceu.” A experiência jamais escapará da mente deste gaúcho de 47 anos, que recebeu a reportagem de VEJA às vésperas do duelo contra o Lanús, da Argentina, na próxima quinta-feira, na Arena Condá, o primeiro compromisso em casa da Chape na Libertadores.

O homem que ainda se emociona ao falar de tudo aquilo que viu e viveu em solo colombiano precisou de um tempo para retomar a rotina de prefeito. Logo após o acidente, Buligon se afastou do trabalho por um mês, quando tirou uma licença do Gabinete. “Eu precisava ficar com a minha família. A gente não conseguiu fazer nada. A gente só se abraçou, agradeceu por estar junto. Mas foi importante. Foi um momento de melhorar.” A inquietação pessoal talvez tenha relação com o fato de que o prefeito deveria estar no voo que levaria a delegação da Chapecoense para a Colômbia. O prefeito não embarcou com os demais pois tinha uma reunião em São Paulo, na qual estava acompanhado pelo atual presidente da Chape, Plinio David De Nes Filho. Ambos iriam para Medellín no dia seguinte à chegada da equipe.

Após a confirmação do acidente, na manhã de terça-feira, dia 29 de novembro, Buligon seguiu para a Colômbia para auxiliar no reconhecimento dos corpos e nas questões burocráticas que precisavam ser resolvidas. O martírio só acabou ao final do velório coletivo, realizado no gramado na Arena Condá, seis dias depois do acidente. “Ficou uma lição grandiosa. Para mim, é um sinal muito claro do que eu devo fazer. Eu devo ser um prefeito, um pai, um professor e um ser humano melhor do que eu era. Então, não ficou trauma. Ficou uma grande lição, um grande momento”, reflete.

Pouco mais de 100 dias após o acidente, o prefeito de Chapecó quer, agora, por em prática a lição que aprendeu. Seus objetivos são conseguir unir a cidade novamente, voltar o olhar para o futuro, construir relações com o time e com empresas, e mostrar um novo modo de fazer futebol, no qual a solidariedade, a fraternidade e o amor ao próximo sejam valores que estejam dentro e fora de campo. Tudo isso, de acordo com o prefeito, só será possível pela lembrança boa daqueles que se foram. “Antes nós fazíamos futebol simplesmente pela união da cidade, por um clube representar as nossas conquistas, e hoje nós temos um outro componente emocional muito forte. Agora nós fazemos futebol também por eles, por aqueles que nos deixaram. O sentimento de dor começa a dar espaço para um sentimento de saudade. Quando você passa a sentir saudade, você passa a querer fazer homenagens, deixar as memórias deles guardadas, lembrar dos bons momentos. Quando você faz um gol, você olha pro céu e faz um sinal. E nisso a cidade começa a reagir”, comenta.

O curioso é que a ligação de Luciano Buligon com a Chapecoense não vem de infância. Natural de Tenente Portela, no Rio Grande do Sul, o atual prefeito está envolvido com a política de Chapecó desde 2003, cidade que adotou na década de 80. O tempo na cidade fez com que ele criasse uma amizade muito grande com vários dirigentes e jogadores da Chapecoense durante os últimos anos e perdesse grandes amigos na tragédia. Para se ter uma ideia, ele chama o atual presidente do clube, Plinio David De Nes Filho, de “Maninho”, o que demonstra a intimidade entre os dois.

O prefeito guarda uma camiseta do clube em sua sala para usar quando precisa ir direto para a Arena Condá acompanhar alguma partida. Também coleciona bandeiras e artigos da equipe no local. Em uma das paredes, uma foto gigante do estádio municipal, hoje chamado de Arena, que serve de casa da Chape. Dentro de um dos armários, a santa que ganhou de presente em Medellín. Não a grande, famosa por ter sido levada por ele ao estádio do Atlético Nacional na homenagem colombiana no dia em que a partida se realizaria em Medellín. Esta, fez questão de deixar na sede do clube. Sobre o jogo de quinta, contra o Lanús, o prefeito confirma: “Quem estiver lá, vai poder me ver pulando e vibrando no meio da torcida”.

Torcer para o clube da cidade hoje em Chapecó deixou de ser uma condição simplesmente futebolística; passou a fazer parte do significado de cidadania. O prefeito não só sabe disso, como vive isso a flor da pele. A reconstrução da Chapecoense representa reconstruir o sonho de 210 mil pessoas, que formam a população do município. Se estar na final da Copa Sul-Americana era o “ápice do sonho”, como define Buligon, agora o momento é de “construção de um novo sonho”.

“Nós continuamos imaginando que nós podemos viver momentos como aquele. Antes nós tínhamos uma motivação: elevar a Chapecoense, o time da nossa cidade, as cores da nossa bandeira, para uma final da Copa Sul-Americana. Hoje, nós temos outro grande motivo, que é honrar aqueles que nos deixaram. Temos que honrar, a cada minuto, aqueles que nos deixaram naquela tragédia. Então são outros fatores emocionais que vem impulsionar esse sentimento. Nós antes vivíamos um sonho, agora nós estamos batalhando para viver mais vezes esses sonhos. Nosso sonho hoje é reconstruir uma equipe, reconstruir uma cidade e, acima de tudo, homenagear aqueles que nos deixaram. Eles precisam ser honrados todos os dias. Para sempre”.

As aparições na mídia durante o período fez do prefeito uma figura conhecida nacionalmente. Ele admite que recebe mensagens de carinho em várias cidades que visita por compromissos de sua agenda. Recebeu uma escultura pequena de um político sentado em sua mesa de um artista do interior da Paraíba. O artista enviou o mimo para homenagear o prefeito de Chapecó. Fez questão de ligar para agradecer o presente.

Buligon fica contente pelas homenagens e as avalia como presentes para todos em Chapecó. “A cidade se transformou na capital mundial da solidariedade. O mundo agora está nos enxergando. Antes, a gente vivia nossas emoções aqui num cantinho de Santa Catarina. Agora, o mundo que está nos olhando, e nós queremos mostrar que é possível a reconstrução, querendo honrar aqueles que nos deixaram. Então é muita emoção. A cidade fica toda atrapalhada. Quinta-feira vocês podem prestar atenção.”

Fonte: VEJA