Chapecó | 01.12.2016 | 18h43 Geral

“A dor é indescritível. É como se todos nós estivéssemos lá”

A Chapecoense é uma família que eu visitava a pé, desde pequena, e que um dia se tornou o trabalho de meu pai e meu irmão.

Eu devia ter uns 5 anos quando ouvi falar da Chapecoense pela primeira vez. Lembro que meu pai, Cezar Dal Piva, estava com uma bandeirinha com o brasão do clube, todo animado. Acho que tínhamos ganho um jogo importante no Campeonato Catarinense, mas isso eu não me recordo bem. Ele pegou a mim e a minha irmã, Carolina, nos braços. Depois, sentou nos degraus de entrada de casa e explicou que a gente torcia para aquele time verde e branco do índio Condá. Eu já curtia o esporte e passei a ser a companheirinha do futebol.

Nossas idas ao estádio eram feitas em uma meia hora de caminhada, coisa que eu nem sentia. A gente ia falando dos jogadores, apostando o placar e, quando se dava conta, já estava lá, na “curvinha” da geral. Os anos 1990 foram tempos de altos e baixos. E houve época de vacas muito magras. O clube organizava bingos para arrecadar dinheiro e fechar as contas. Esse era outro programa que eu e meu velho adorávamos. Nunca ganhamos nada, mas era superdivertido. Toda final de Campeonato Catarinense era uma briga. Eu queria ir, mas minha mãe tinha medo da multidão e não deixava. Fiquei aos prantos algumas vezes, torcendo de casa pela TV.

Podia contar mil histórias. Não tem como explicar as emoções provocadas pelo Furacão do Oeste no meu coração, desde a infância. Mas nos últimos anos muita coisa especial estava acontecendo. Uma família de gente competente se formou para dar profissionalismo ao sonho de quem queria ver a Chapecoense ser grande. Jogar na série A do Campeonato Brasileiro.

Com os filhos crescidos, meu pai resolveu realizar um sonho de infância e trabalhar com futebol. Começou como voluntário, auxiliando na estrutura física e na organização das categorias de base do clube. O esforço logo foi notado pela diretoria, sobretudo pelo presidente Sandro Pallaoro, que o convidou para ser diretor da categoria de base. Era onde meu irmão, Luiz Felipe, já treinava como goleiro. A coisa foi se transformando, virou familiar e se tornou séria. Todos juntos fomos sonhando um pouco mais.

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Meu último jogo na Arena Condá, neste ano, foi em maio. Era final do Campeonato Catarinense. Ganhamos do Joinville. Presenciei a primeira conquista do clube, desde os tempos da infância. Estive nas finais de 2009 e 2013, mas perdemos as duas. A primeira para o Avaí, a segunda para o Criciúma. Estava quase me achando uma versão brasileira do pé-frio Mick Jagger. Neste ano, espantei a inhaca. Ganhamos em casa de um jeito para ninguém botar defeito. Tiramos foto e tietamos o nosso herói, o Danilo, um guerreiro atento, simpático e humilde. Não é fácil ser goleiro. Todo mundo se lembra de quem faz o gol. Poucos se recordam daqueles que evitam e garantem resultados. Danilo fez nesse tempo cada defesa incrível... teve até um chute à queima-roupa do Robinho, do Santos, no ano passado. Na semana passada, Danilo tirou uma bola com o pé, em cima da linha, nos acréscimos. Assim a Chapecoense segurou um empate com o San Lorenzo, da Argentina, e chegou pela primeira vez à final da Copa Sul-Americana.

Foram muitas festas, churrascos e momentos incríveis que passamos juntos. Sandro Pallaoro é uma das mais gratas surpresas que minha família teve ao conhecer. Um homem batalhador, simples e apaixonado pela Chapecoense. Na semana que vem, estaríamos todos juntos em Curitiba, sonhando ainda mais alto. Sonhando com o título da Sul-Americana, que o time foi de avião à Colômbia disputar. Não deu. Perdemos grande parte dessa família. A dor é indescritível. De algum modo, é como se todos nós estivéssemos um pouco lá. Mais que um time, era uma família. Algo muito difícil de encontrar no futebol e o que para a Chapecoense fazia toda a diferença.

* Juliana Dal Piva é jornalista, nascida em Chapecó, Santa Catarina

Fonte: ÉPOCA